O grupo Suraras do Tapajós, carimbó formado por mulheres indígenas, realizarão apresentações em Ouro Preto nesta quinta-feira (29), e em Santo Antônio do Leite, no próximo sábado (31), no Teatro Municipal da Ópera e na Praça do Coreto, respectivamente. Os eventos fazem parte de uma extensão do Festival da Primavera, e contarão com aividades paralelas, como oficinas e feira de artesanato indígena.
A turnê do grupo teve início em 19 de abril, em São Paulo, e vem cruzando 12 cidades nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. Até dezembro, a gira passa por Salvador (BA), Manaus (AM), Natal (RN), Rio Branco (AC) e São Luís (MA).
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O projeto “Suraras do Tapajós – Mulheres Indígenas, a Voz da Resistência”, é o maior de circulação que o grupo já realizou. De Alter do Chão, em Santarém, território do povo Borari, as paraenses marcam presença em um ritmo tradicionalmente executado por homens e, de forma subversiva, amplificam suas lutas pelo protagonismo feminino e indígena na defesa dos territórios da floresta.
Depois de uma turnê pelo Canadá em julho, de giro pela Europa, no ano passado, alcançando países como França, Portugal e Finlândia, e de integrar a programação da COP30, em Belém, as Suraras estreiam em turnê nacional, com shows que contam com novidades do figurino ao repertório.
O espetáculo conta com identidade musical, mesclando canções autorais e clássicos da música paraense de mestres do carimbó, como Dona Onete, que fortalecem a cultura na região, com letras que exaltam a natureza, a força feminina, a ancestralidade indígena e a relação profunda de seus povos com as águas e seus territórios.
Idioma usado até hoje no Baixo Tapajós, o Nheengatu se faz presente em falas e músicas, reforçando o compromisso com a preservação dos saberes originários. O trabalho autoral do conjunto tem como base o álbum “A Força Que Vem das Águas – Kiribasáwa Yúri Yí-Itá” e singles mais recentes, que ampliam o diálogo entre tradição e contemporaneidade.
Em cena, as Suraras utilizam instrumentos como curimbós, maracas feitas de cuia, banjo e violão, e além disso, apresentam arranjos vocais que seguem a tradição do gênero, com alternância entre solista e coro. Além da voz, a coreografia é parte importante do espetáculo, promovendo a integração do público, que é convidado a participar, somando seus movimentos à roda que se forma no palco.
Em outro momento do espetáculo, elas compartilham com suas plateias o ritual do banho de cheiro com ervas medicinais, prática ancestral amazônica ligada à cura, à proteção e ao bem-estar, misturando música, dança e espiritualidade, numa experiência imersiva e sensorial.
Para reafirmar essa dimensão ritualística, simbólica e identitária de seus espetáculos, as artistas se apresentam descalças e pintadas com grafismos corporais feitos com tinta de jenipapo, vestidas com largas e coloridas saias artesanais e cocares indígenas de penas, cobertas de biojoias e adornos manufaturados, apresentando a riqueza da ancestral sabedoria artesanal indígena.
“Sempre que subimos num palco, representamos nosso povo e nossa região: somos um território encontrando outros”, diz Val Munduruku, artista e ativista socioambiental do povo Munduruku, gestora pública, maraqueira e backing vocal, presidente da Associação de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós, do qual o grupo musical faz parte. “Nossa arte é nossa luta. E vice-versa. Cantamos em defesa do rio, da floresta, das mulheres e dos povos indígenas. É uma luta árdua e é também uma grande celebração. Nossa resistência é pela alegria, pela tradição.”
O público ainda contará com o Ponto de Encontro Petrobras, instalação inspirada na Amazônia e nas mulheres indígenas das Suraras do Tapajós. “Essa troca é muito importante. Entendemos a cultura como uma poderosa ferramenta de transformação social”, analisa Vall. Assim como os shows, todas as ações contarão com intérprete de Libras.
A turnê aprovada na Seleção Petrobras Cultural, com patrocínio da Petrobras, realização do Ministério da Cultura e recursos da Lei Rouanet, com produção da Alter do Som.
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Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
