Estudo da UFOP revela aumento de 70% em casos de autolesão em Ouro Preto

Uma pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) revelou um crescimento de 70% nas notificações de autolesão, com forte concentração no bairro Bauxita, onde estão localizados os campi da UFOP e do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). O estudo, iniciado em 2019, analisou dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e da Vigilância Epidemiológica municipal entre 2022 e 2024, período em que foram registradas 138 notificações de lesões autoprovocadas.

Os números mostram uma evolução preocupante: 38 notificações em 2022, 37 em 2023 e 63 em 2024. O salto no último ano praticamente dobrou os registros em relação ao período anterior, consolidando o aumento de 70% nas notificações. Segundo os pesquisadores, parte desse crescimento pode estar relacionada ao contexto universitário e a eventos que impactaram a saúde mental dos estudantes.

O perfil epidemiológico traçado pela pesquisa aponta predominância entre mulheres pardas, na faixa etária de 20 a 39 anos. O meio mais frequentemente utilizado nas ocorrências notificadas foi o envenenamento ou intoxicação. Territorialmente, o bairro Bauxita lidera as notificações, seguido por Antônio Dias e Morro Santana. Para os autores do estudo, essa concentração espacial sugere uma possível associação com o ambiente universitário.

Renan Lima Vieira, estudante de Medicina da UFOP e um dos autores da pesquisa, explica que a ausência de dados locais motivou a investigação. Segundo ele, não havia levantamentos específicos sobre tentativas de suicídio e lesões autoprovocadas em Ouro Preto antes do início do projeto. A equipe também observou que, em 2024, ocorreu uma paralisação na universidade, o que pode ter influenciado negativamente a saúde mental dos estudantes e contribuído para o aumento dos casos.

Outro achado relevante foi a identificação de falhas no sistema de notificação compulsória. A análise revelou dificuldades no preenchimento correto das fichas por parte dos profissionais de saúde, incluindo confusão entre os termos “envenenamento” e “intoxicação”, campos obrigatórios em branco, erros de preenchimento e letras ilegíveis. Esses problemas resultam em dados imprecisos e subnotificação dos casos.

Em reuniões com a Secretaria Municipal de Vigilância em Saúde, a equipe de pesquisa mapeou gargalos em diferentes níveis. No âmbito municipal, foram apontados o descumprimento do prazo de 24 horas para notificação, a falta de capacitação dos profissionais e a sobrecarga de trabalho nas unidades básicas de saúde. Nos níveis regional e estadual, destacam-se a escassez de pessoal, a ausência de suporte técnico adequado e a utilização de sistemas considerados obsoletos e lentos.

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A pesquisa também chamou atenção para lacunas nos dados raciais. Apesar de Ouro Preto ter uma das maiores proporções de população preta do país, não houve notificações classificadas como de pessoas pretas ou indígenas no período analisado. Para os pesquisadores, isso indica falhas no registro da variável raça/cor e dificulta a formulação de políticas públicas direcionadas a grupos mais vulneráveis.

O estudo contextualiza os dados locais em um cenário nacional igualmente preocupante. No Brasil, as taxas de suicídio cresceram, em média, 3,7% ao ano entre 2011 e 2022, com maior impacto entre jovens de 10 a 24 anos. Em 2023, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 11.502 internações por lesões autoprovocadas, mais de 30 por dia, com aumento superior a 25% em relação a 2014.

Para Renan, a atenção básica desempenha papel central na prevenção. Ele destaca que as unidades de saúde são, muitas vezes, o primeiro ponto de contato de pessoas em sofrimento psíquico e, por isso, precisam estar preparadas para identificar sinais de alerta precocemente. O pesquisador defende a implementação de políticas públicas específicas para grupos de risco, especialmente mulheres pardas em idade universitária, e a capacitação técnica contínua dos profissionais de saúde para melhorar a qualidade das notificações.

O suicídio é um problema complexo e multicausal, mas é evitável. Se você está passando por um momento difícil ou conhece alguém que precisa de ajuda, procure apoio:

  • CVV – Centro de Valorização da Vida: 188 (24h, gratuito)
  • CAPS e UBS: procure a unidade de saúde mais próxima
  • SAMU: 192 (em casos de emergência)

Com informações do portal Vintém News.

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