Anitta faz cover de Titãs, vira meme, e Bichos Escrotos some do Spotify; Entenda

Anitta faz cover de Titãs, vira meme, e canção some do Spotify. Entenda

A nova versão de “Bichos Escrotos”, clássico dos Titãs regravado por Anitta para a trilha sonora de “Corrida dos Bichos”, chamou atenção nas redes e virou alvo de memes e comentários sobre a interpretação da cantora.

A música deixou de aparecer na aba de lançamentos recentes do perfil de Anitta no Spotify, embora não tenha sido retirada da plataforma e continue disponível com a cantora creditada. A faixa também passou a ter “CO.LABS” entre os artistas principais, o que gerou questionamentos entre os usuários.

Quando o meme ajuda a música

Para Jeff Nuno, CEO da LUJO NETWORK e especialista em distribuição digital,  a viralização não deve ser automaticamente encarada como algo negativo. O meme pode funcionar como uma poderosa ferramenta de descoberta musical quando consegue despertar curiosidade e levar o público até a obra.

“Quando uma música entra na cultura dos memes, ela passa a circular em ambientes que vão muito além das plataformas de música. Isso pode aumentar o alcance, gerar buscas, estimular compartilhamentos e fazer com que pessoas que não conheciam aquele artista ou aquela faixa passem a ouvi-la”, explica.

“Brat”, de Charli XCX se transformou em um fenômeno cultural, com sua estética, capa e conceito sendo reproduzidos e reinterpretados nas redes sociais. A estratégia de comunicação ajudou a transformar o projeto em um assunto que ultrapassou o público tradicional da cantora. O álbum chegou ao terceiro lugar da Billboard 200 e se tornou um dos grandes fenômenos culturais da música pop em 2024.

No Brasil, “Bang”, de Anitta, também demonstra como elementos facilmente reproduzíveis podem ampliar a força de uma música. A coreografia foi replicada por fãs, artistas e usuários nas redes, enquanto paródias também ajudaram a manter a faixa em circulação. Pouco mais de um mês após o lançamento, o clipe já havia ultrapassado 20 milhões de visualizações, e a própria cantora passou a incentivar os fãs a produzirem suas versões da coreografia.

“Existe uma diferença importante entre uma música simplesmente virar meme e uma música conseguir transformar o meme em porta de entrada para o próprio conteúdo. No segundo caso, a viralização deixa de ser apenas uma brincadeira e passa a contribuir para a construção de audiência”, afirma Jeff Nuno.

Quando a viralização vira problema
O caminho contrário também é possível. Quando a principal associação criada pelo público é uma piada, uma crítica ou um elemento considerado negativo, a música pode ficar marcada pelo meme em vez de ser lembrada por sua proposta artística.

Um dos casos mais conhecidos no Brasil aconteceu com “Juntos”, versão de “Shallow” lançada por Paula Fernandes e Luan Santana em 2019. Antes mesmo de chegar oficialmente às plataformas, o trecho “juntos e shallow now” virou alvo de memes e críticas nas redes sociais. A repercussão foi tão intensa que a expressão passou a ser praticamente indissociável da música.

Apesar da recepção negativa de parte do público, o episódio também demonstra uma das contradições da cultura digital: uma repercussão ruim pode gerar enorme exposição. O videoclipe oficial acumulou milhões de visualizações, enquanto a música permaneceu durante semanas como assunto recorrente nas redes.

Para Jeff, porém, números de exposição não significam necessariamente sucesso de posicionamento.

“Uma música pode ter milhões de visualizações por causa de uma piada e, ainda assim, não conseguir transformar essa atenção em uma relação positiva com o artista. Alcance é importante, mas é preciso observar o que o público está associando àquele conteúdo”, pontua.

O caso de Anitta com Bichos Escrotos

No caso de “Bichos Escrotos”, a repercussão provocada pelos memes não significa necessariamente que a música tenha sido prejudicada. A faixa continua disponível no Spotify e está vinculada ao filme “Corrida dos Bichos”, o que cria outros pontos de contato com o público.

O próprio funcionamento das plataformas digitais torna esse tipo de episódio mais complexo. Uma música pode desaparecer de determinada área de um perfil, ganhar novos créditos, ser utilizada em vídeos de terceiros ou simplesmente aumentar sua circulação por causa de um conteúdo viral, sem que isso represente necessariamente uma retirada ou fracasso comercial.

“O ambiente digital é muito mais dinâmico do que era no mercado tradicional. Uma música pode estar sendo consumida de uma maneira diferente daquela planejada inicialmente. Por isso, é importante analisar dados de audiência, buscas, utilização em vídeos, retenção e conversão para entender se aquela viralização está realmente trazendo resultado”, explica Jeff.

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O meme não substitui a estratégia
A viralização é espontânea, mas a forma como um artista ou equipe reage a ela pode ser estratégica. Aproveitar um meme, estimular uma tendência, produzir novos conteúdos a partir da repercussão ou direcionar o público para a música são algumas possibilidades. 

Ao mesmo tempo, tentar fabricar artificialmente uma situação viral pode produzir o efeito contrário. Quando o público percebe que determinada ação foi criada apenas para gerar engajamento, a repercussão pode perder força rapidamente.

“O meme é um acelerador de atenção, não uma estratégia completa de distribuição. Se a pessoa chega até a música por causa de uma brincadeira, é preciso oferecer algo que faça com que ela permaneça ali, conheça o artista e continue consumindo o trabalho”, conclui Jeff Nuno.

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