Mariana, que já tem o terceiro maior custo de vida de Minas Gerais, pode receber mais 15 mil pessoas para trabalhar na mineração, o que pode tornar a vida na cidade ainda mais cara. O assunto foi debatido na última reunião ordinária da Câmara Municipal de Mariana, nesta segunda-feira (21), a partir do Requerimento nº 132/2026, proposto pelo vereador Ronaldo Bento.
O documento foi direcionado à Vale S.A., Samarco Mineração S.A., Cedro Mineração, Mineração Ducal, Roca Mineração e MG Mineração de Tombos. O texto solicita uma reunião com representantes dessas empresas para questionar a existência de planejamento estruturado e cobrar informações sobre planos de contrapartidas. O objetivo é discutir medidas mitigatórias frente ao impacto que a circulação de milhares de novos trabalhadores causará na rede municipal de saúde, educação, assistência social, mobilidade e segurança pública.
O requerimento levanta questionamentos sobre estudos e projeções técnicas por parte das mineradoras, exigindo transparência financeira e prazos para investimentos em infraestrutura. Durante a sessão, o autor do documento pontuou o risco de um processo de inflação acelerado. “Hoje, quem paga um aluguel de R$ 1.200 vai estar pagando R$ 3.000, R$3.500 diante do alto inflacionamento que vai trazer esse número de pessoas que vão chegar”, afirmou Ronaldo Bento.
Além da pressão habitacional, o parlamentar destacou a sobrecarga iminente nos serviços públicos de atendimento direto aos cidadãos, alertando para o risco de a cidade ficar fragilizada após a passagem desses contingentes de trabalhadores. “Precisamos colocar a responsabilidade na mão das empresas para que elas apresentem um plano de ação e de contingência para dar tranquilidade a Mariana, aos moradores e ao Executivo. É necessário garantir estrutura para a nossa saúde, que vai ter um maior número de atendimentos, e para a nossa educação, com crianças demandando vagas em creches e escolas”, argumentou o vereador.
O vereador Ítalo de Majelinha comparou o cenário de inflação imobiliária à crise enfrentada pela cidade logo após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015. “Não adianta consertar o que foi feito errado no passado e continuar fazendo errado. O que a gente vai ter é uma cidade que vai continuar com ocupação irregular, bolha imobiliária e mobilidade comprometida”, criticou Ítalo.
O parlamentar sugeriu que os alojamentos de trabalhadores sejam instalados fora do perímetro urbano, mais próximos às frentes de lavra, e cobrou fiscalização sobre o fluxo de veículos pesados. Segundo ele, as empresas têm descumprido leis municipais que proíbem o estacionamento noturno de caminhões e ônibus em áreas residenciais.
Na mesma linha, o vereador Fernando Sampaio alertou para os riscos físicos de infraestrutura causados pela superlotação de moradias. Ele destacou que residências projetadas para famílias de seis pessoas chegam a abrigar dezenas de trabalhadores, o que provoca insuficiência no abastecimento de água e rompimentos constantes na rede de esgoto.
Ele cobrou do Executivo municipal uma postura de imposição de limites às mineradoras e usou como parâmetro a cidade de Conceição do Mato Dentro, onde empreendimentos do setor construíram moradias próprias para absorver os funcionários temporários. “A prefeitura tem que botar o pé no freio. Não pode simplesmente deixar a bomba para a cidade. O morador nosso que precisa pagar aluguel e ainda não tem casa própria é quem sofre com isso”, pontuou.
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O impacto da população flutuante em Mariana
O debate no Legislativo está alinhado a dados econômicos locais recentes. Um ranking de custo de vida estadual (2025/2026) aponta Mariana como a terceira cidade mais cara de Minas Gerais, com 88,7 pontos, atrás apenas de Belo Horizonte e Nova Lima.
O 1º Boletim Econômico de Mariana, divulgado pelo Observatório Econômico Municipal em 2025, registrou uma inflação acumulada de 3,19% entre maio e outubro daquele ano — taxa quase três vezes maior que a média nacional (1,22%). O grupo “Habitação” respondeu pela principal fatia de impacto do Índice de Preços ao Consumidor (IPC-MARIANA). Segundo a análise, a alta demanda por moradias por parte da população flutuante empurrou o custo médio de aluguéis para a faixa de R$ 1.800 a R$ 2.500.
O estudo também evidenciou um desequilíbrio na prestação de serviços essenciais devido à discrepância demográfica. Enquanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabiliza oficialmente 65.506 habitantes, a estimativa populacional real pode chegar a 115 mil pessoas. A prova documental desse fluxo é o número de cartões do Sistema Único de Saúde (SUS) emitidos pela prefeitura, que já ultrapassava a marca de 105 mil inscritos em 2025.
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Bacharel em jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), com passagens por Jornal O Espeto, Território Notícias e Portal Mais Minas.
