Estudo revela alto impacto da mineração na saúde de mulheres negras

Estudo revela alto impacto da mineração na saúde de mulheres negras

Um levantamento inédito sobre a realidade de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, revela um quadro alarmante de adoecimento físico e emocional — especialmente entre as mulheres negras. O estudo PEREIRA.DOC, conduzido por UFOP, IFMG e UFV entre dezembro de 2022 e março de 2025, mostra como décadas de impacto da mineração, somadas ao risco de rompimento e às obras de descomissionamento da Barragem Doutor, têm deixado marcas profundas no cotidiano da população.

Ao longo da pesquisa, 171 moradores participaram de rodas de diálogo e responderam a instrumentos de avaliação de saúde. As mulheres representaram a maioria das entrevistadas e concentraram os piores indicadores. Entre elas, 85,9% relataram sinais de ansiedade, depressão ou insônia — proporção mais que o dobro da observada entre os homens. O sofrimento emocional aparece mais intenso entre mulheres negras e idosas, grupo que também apresentou maior incidência de ideação suicida.

Os dados socioeconômicos reforçam a vulnerabilidade: quase 20% das entrevistadas vivem com menos de R$ 500 mensais, e apenas 13% concluíram o ensino médio. O estudo aponta que a maioria nunca trabalhou na mineração industrial; em vez disso, se sustenta com atividades informais, como serviços domésticos, comércio e bicos. A faixa etária predominante varia entre 50 e 59 anos, com vínculos de trabalho frágeis e poucas oportunidades de formação.

A avaliação pelo instrumento WHOQOL-BREF indica queda geral na percepção de bem-estar, sobretudo no que diz respeito ao ambiente: poluição, ruído, poeira mineral, moradias precárias e medo constante da barragem colocam o território como um dos piores avaliados pelos moradores. Entre mulheres lésbicas, por exemplo, o domínio psicológico apresenta um dos níveis mais baixos registrados.

O relatório chama atenção para o peso do chamado “mito da mulher negra forte”, que acaba convertendo resistência em exigência silenciosa. Apesar disso, quase todas as entrevistadas relataram estratégias de enfrentamento, muitas delas vinculadas a redes comunitárias como o coletivo Mulheres Guerreiras de Antônio Pereira.

Sete em cada dez mulheres classificam a poluição local como “muito grave”. Também é alto o índice de preocupação com o risco de rompimento da barragem — um temor que cresceu após deslocamentos forçados e evacuações nos últimos anos. O consumo de álcool na comunidade aparece como outro problema recorrente, especialmente entre mulheres que convivem com episódios de violência e sobrecarga emocional.

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O estudo também detalha como a divisão da rede de saúde fragiliza o atendimento no distrito. Apesar de ser administrado por Ouro Preto, o acesso aos serviços especializados exige deslocamento pela cidade de Mariana, o que dificulta o acompanhamento de casos mais complexos. Situações de urgência, sobretudo relacionadas à saúde mental, acabam agravadas pelas longas distâncias e pela falta de transporte adequado.

A Prefeitura de Ouro Preto afirma estar ampliando a Rede de Atenção Psicossocial. O distrito conta atualmente com dois psicólogos e uma assistente social atuando 30 horas semanais, equipe financiada por medidas reparatórias da Vale. A Unidade Básica de Saúde passou a funcionar de 7h às 19h e ganhou sala de estabilização para urgências.

Já a Samarco aponta ter destinado, em 2024, R$ 26 milhões a iniciativas no território, incluindo contenção de erosão, apoio a projetos comunitários e ações socioinstitucionais. Para 2025, a previsão é de R$ 6,5 milhões em programas de capacitação, empreendedorismo e inclusão digital.

Ao reunir dados estatísticos, análises históricas e escuta ativa da comunidade, o PEREIRA.DOC oferece uma síntese rara sobre o impacto da mineração na vida cotidiana. O diagnóstico destaca que a questão vai além dos danos físicos: envolve memória, pertencimento e o desmonte de vínculos sociais.

Os pesquisadores defendem que qualquer política de reparação precisa partir da escuta da população — especialmente das mulheres que sustentam, dia após dia, as casas e a vida comunitária em um território que ainda luta para ser plenamente reconhecido em sua dor e em sua potência.

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