Livro sobre música brasileira de 1985 reúne autores e memórias

Livro sobre música brasileira de 1985 reúne autores e memórias

O produtor cultural, cantor e compositor itabiritense Thelmo Lins participou, no último sábado (27), do lançamento do livro 1985 – O ano que repaginou a música brasileira. O evento aconteceu na livraria Outlet do Livro, na Savassi, em Belo Horizonte, e reuniu o organizador da obra, o jornalista Célio Albuquerque, além dos autores Daniella Zupo, Washington Santos e Luiz Carlos Sá.

A publicação integra uma trilogia idealizada por Albuquerque dedicada a anos considerados marcantes da música popular brasileira. Os volumes anteriores abordaram 1973 e 1979. No novo livro, 85 autores escrevem sobre 85 discos lançados em 1985, buscando contextualizar a produção musical daquele período e suas relações com o cenário político e cultural do país.

Convidado a colaborar na obra, Thelmo Lins escreveu sobre o álbum O Corsário do Rei, composto por Chico Buarque e Edu Lobo a partir da trilha do musical homônimo dirigido por Augusto Boal.

Segundo o artista, o livro reúne análises de discos lançados em um ano marcado por transformações políticas no Brasil. “Esse livro todo é dedicado aos discos que foram lançados em 1985. Por que 85? Porque foi um ano muito importante por causa da redemocratização do Brasil”, explicou.

A peça O Corsário do Rei, que inspirou o álbum analisado por Lins, foi montada quando Augusto Boal retornou do exílio após a ditadura militar. O espetáculo teve grande produção e contou com nomes como Marco Nanini e Lucinha Lins.

“Era uma superprodução. O Augusto Boal era muito amigo do Chico Buarque e pediu ao Chico e ao Edu Lobo para fazerem as músicas da peça. O resultado foi esse disco, com canções inspiradas no texto do espetáculo”, contou.

O álbum reúne participações de artistas importantes da música brasileira, como Tom Jobim, Gal Costa e integrantes da banda Blitz. Uma das músicas mais conhecidas da trilha é “Choro Bandido”, que posteriormente ganhou diversas regravações.

Para Lins, a oportunidade de escrever sobre o disco também dialoga com sua trajetória artística. “Eu milito muito na área teatral, então misturar teatro e música é algo que eu já fiz várias vezes na minha vida”, afirmou.

Durante a pesquisa para o texto, ele também se surpreendeu com episódios envolvendo a recepção crítica da peça de Boal. Segundo Lins, o diretor foi alvo de questionamentos por ter realizado um espetáculo de grande orçamento, diferente de suas produções anteriores, mais simples.

“Ele sofreu uma perseguição por causa disso. A crítica se preocupou mais com as condições financeiras da montagem do que com o trabalho em si”, disse.

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Um ano de transformação

Para o organizador Célio Albuquerque, 1985 representa um momento simbólico tanto para a política quanto para a música brasileira. “A eleição do primeiro presidente civil depois de mais de 20 anos de ditadura, a figura do Tancredo Neves e também o Rock in Rio fazem de 1985 um ano muito emblemático”, explicou.

Segundo ele, o período marcou a consolidação do chamado “rock Brasil”, que já vinha ganhando força desde o início da década. “Com o Rock in Rio, as bandas de rock começaram a receber mais atenção das gravadoras. Ao mesmo tempo, foi um ano com muitos discos de samba, porque em 1984 o gênero teve grande sucesso comercial”, disse.

Entre os artistas que lançaram trabalhos importantes naquele ano estão Legião Urbana, Kid Abelha, Luiz Carlos da Vila, Fundo de Quintal, Dona Ivone Lara e Almir Guineto. Albuquerque destacou ainda que a produção do livro envolve um trabalho coletivo de seleção e discussão entre os autores.

“A gente seleciona alguns discos que achamos que precisam estar no livro e depois convidamos autores para escrever. Às vezes a pessoa sugere outro disco que eu não tinha pensado e a gente inclui. A ideia é ter um pensamento plural”, explicou.

Diversidade da música brasileira

A jornalista e escritora Daniella Zupo, que assina um dos capítulos sobre o disco de Tunai, ressalta que a obra evidencia a diversidade da música brasileira nos anos 1980. “O que sempre me impressiona quando a gente se debruça sobre essas pesquisas é a diversidade da música popular brasileira”, afirmou.

Embora o rock nacional seja frequentemente associado ao período, ela lembra que outros estilos também estavam em destaque. “É um ano muito marcado pelas bandas de rock na memória das pessoas, mas quando você olha a produção inteira vê grandes discos de samba, MPB, música caipira e até o surgimento do sertanejo”, disse.

Para Zupo, o livro também contribui para preservar a memória cultural do país.

“Essa organização que o Célio faz é preciosa. São 85 autores escrevendo sobre 85 discos, com um olhar plural de jornalistas, pesquisadores e compositores. É uma pesquisa musical muito bem contextualizada na história do Brasil”, avaliou.

Música e contexto histórico

O jornalista Washington Santos, responsável pelo texto de contextualização histórica da obra, destaca que os anos escolhidos para a trilogia coincidem com momentos de virada na história do país.

“A música popular brasileira acaba tratando muito do que está acontecendo na sociedade. Por isso é interessante contextualizar o ano política e economicamente”, explicou.

Segundo ele, a escolha de 1985 se relaciona diretamente ao processo de redemocratização.

“Esses momentos que o Célio escolheu como viradas na música também são viradas na história brasileira e muito ligadas à democracia”, afirmou.

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