Cerca de seis meses separam uma ligação feita pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a deflagração da Operação Rejeito, investigação da Polícia Federal que revelou um esquema bilionário envolvendo mineração, corrupção e suspeitas de fraude em processos de licenciamento ambiental em Minas Gerais.
Em 30 de março de 2025, segundo áudios encontrados pela Polícia Federal no celular de Vorcaro, Nikolas entrou em contato com o empresário para pedir ajuda em relação a um “ativo minerário” ligado a seu advogado e ex-assessor parlamentar, Thiago Rodrigues de Faria. Na gravação, o deputado apresenta Faria como “Meu advogado, enfim, irmão meu” e diz que ele estaria tratando de um ativo que já havia passado por avaliação técnica e aguardava providências. O material não demonstra, contudo, que Vorcaro tenha efetivamente atuado para liberar o ativo ou que a negociação tenha sido concluída.
O ativo minerário, citado por Nikolas Ferreira, está em uma área no distrito de Rodrigo Silva, em Ouro Preto, com direitos minerários da empresa Mineração Topázio Imperial. Dentro da área de lavra está a Barragem Água Fria, vinculada à mineradora e registrada pela Agência Nacional de Mineração (ANM) como uma estrutura construída pelo método a montante. O modelo é o mesmo utilizado nas barragens que romperam em Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019. A estrutura aparece em documentos da ANM entre as barragens construídas pelo método a montante que estão sujeitas ao processo de descaracterização.
O episódio ganhou outra dimensão meses depois. Em setembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Rejeito para investigar uma organização suspeita de corromper agentes públicos e obter licenças ambientais fraudulentas para atividades de mineração. A operação cumpriu 79 mandados de busca e apreensão, 22 mandados de prisão preventiva e determinou o bloqueio de R$ 1,5 bilhão em ativos. Segundo a PF, o grupo teria obtido ao menos R$ 1,5 bilhão com as atividades criminosas e mantinha projetos com potencial econômico superior a R$ 18 bilhões.
Entre as empresas que apareceram nas investigações estava a Gmais Ambiental, apontada pela PF como uma empresa de fachada. A companhia tinha ligação com o advogado Thiago Rodrigues de Faria, que havia firmado, em janeiro de 2025, um contrato relacionado à intermediação de uma negociação de direitos de lavra de minério. O negócio envolvia a Mineração Topázio Imperial, de Ouro Preto, e poderia representar valores estimados entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões.
De acordo com as investigações, a Gmais teria como gestores ocultos o delegado da Polícia Federal Rodrigo Melo Teixeira e o consultor ambiental Gilberto Henrique Horta de Carvalho. Os dois foram presos na Operação Rejeito. Teixeira havia ocupado a Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais e, posteriormente, a Diretoria de Administração e Finanças do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Carvalho foi apontado pelos investigadores como articulador do grupo junto a órgãos ambientais e à Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
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A estrutura empresarial também chamou a atenção dos investigadores. Segundo informações reunidas durante a operação, a Gmais estava registrada em endereço associado a uma clínica de estética em Belo Horizonte, sem sinais de funcionamento efetivo da empresa no local. A PF apontou que Teixeira e Carvalho seriam sócios ocultos da companhia, embora ela estivesse formalmente registrada em nome de outras pessoas.
É nesse ponto que o caso de Nikolas Ferreira passa a se cruzar com a investigação sobre mineração. O contrato firmado pelo escritório de Thiago Rodrigues de Faria com a Gmais foi assinado antes do áudio enviado pelo deputado a Vorcaro. O acordo previa remuneração vinculada ao resultado da negociação e envolvia uma lavra de minério em Ouro Preto. Segundo o portal UOL e o jornal Estado de Minas, nos documentos da investigação a comissão poderia chegar a 25% dos valores envolvidos no negócio.
Isso, porém, não permite afirmar que o ativo mencionado por Nikolas no áudio era necessariamente o mesmo negócio investigado pela Operação Rejeito. Até o momento, as informações divulgadas sobre a investigação estabelecem a existência do contrato entre o advogado e a Gmais e, separadamente, o pedido de Nikolas a Vorcaro para tratar de um ativo minerário ligado a Faria. A ligação entre os dois episódios é uma questão que exige cautela e não deve ser apresentada como fato comprovado sem documentação que faça essa identificação de maneira direta.
A Serra do Curral no centro da investigação
A Operação Rejeito, entretanto, vai muito além de uma negociação específica. Parte importante da investigação está relacionada à exploração de minério de ferro na Serra do Curral, área de grande relevância ambiental e paisagística na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Segundo a Polícia Federal e órgãos que acompanharam as investigações, o esquema envolvia empresas, agentes públicos e intermediários que buscavam facilitar autorizações e licenças para atividades minerárias. Entre os empreendimentos investigados estava a exploração na Serra do Curral, considerada um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte.
A exploração da região já era alvo de forte resistência de moradores, ambientalistas e movimentos da sociedade civil. Em audiências realizadas após a operação, comunidades relataram problemas associados à atividade minerária, como poeira, ruídos, explosões e impactos sobre imóveis e sobre a qualidade de vida da população.
Em outubro de 2025, uma audiência pública realizada pela Câmara Municipal de Belo Horizonte discutiu justamente os efeitos da Operação Rejeito e da mineração ilegal na Serra do Curral. Segundo a Câmara, moradores e entidades denunciaram violações e a fragilização de políticas ambientais relacionadas à região.
A investigação também revelou que o grupo tinha atuação em diferentes frentes para viabilizar projetos de mineração. Um dos principais exemplos foi a atuação de Gilberto Carvalho junto a órgãos públicos e instituições responsáveis por processos ambientais e minerários. A PF atribuiu a ele participação na articulação de interesses do grupo e apontou sua atuação em iniciativas relacionadas à Serra do Curral.
O caso ganhou novos desdobramentos em 2026. Em junho, uma segunda fase da Operação Rejeito, denominada Contrassabotagem, investigou uma estrutura paralela de monitoramento criada por integrantes do grupo. Segundo a PF, os investigados teriam tentado interferir no andamento do processo e chegaram a monitorar autoridades envolvidas na investigação.
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Mateus Del’Amore é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), com interesse em jornalismo político e cultural, especialmente na cobertura de cinema e do audiovisual.
