O bloco carnavalesco URUCUM divulgou uma carta pública em resposta a críticas direcionadas às suas apresentações durante o carnaval em Itabirito. No texto, o coletivo afirma que manifestações artísticas vêm sendo retratadas como ameaça por parte de alguns setores, em uma narrativa que, segundo o grupo, desconsidera a diversidade cultural e o direito à livre expressão no espaço público.
Com 12 anos de atuação, o Bloco URUCUM afirma que não é a primeira vez que enfrenta ataques quando suas performances questionam estruturas historicamente associadas à exclusão de diferentes formas de existir. A carta relembra episódios de homofobia e racismo que, segundo o grupo, chegaram a ser veiculados em noticiários locais, em contraste com a receptividade que o bloco afirma receber nas ruas de Itabirito e em outras cidades onde se apresenta.
Na publicação, o URUCUM defende que a arte e a cultura são reconhecidas por grande parte da população como valores que promovem alegria, geram empregos e fortalecem a economia criativa, ao mesmo tempo em que cumprem um papel crítico ao confrontar discriminações baseadas em cor, gênero ou religião. Para o coletivo, o debate ultrapassa o campo artístico e envolve o direito de existir de forma pacífica na diferença.
O bloco também destaca que respeita as tradições religiosas do município e reconhece a importância social de comunidades de fé, mas reivindica o mesmo respeito à sua linguagem artística como parte da diversidade que compõe o espaço público. Segundo a carta, o trabalho desenvolvido pelo URUCUM vai além do carnaval, incluindo oficinas de formação, manutenção de equipamentos musicais, produção de materiais informativos e a estrutura necessária para garantir um cortejo gratuito e acessível, que o grupo afirma ser o de maior público nas sextas-feiras de carnaval.
Ao rebater as críticas, o coletivo ressalta que seus integrantes são trabalhadores de diferentes áreas — como educação, saúde, comércio, direito e serviços domésticos — e que as performances realizadas não configuram ataques, mas expressões artísticas fundamentadas nos princípios dos direitos humanos, sem violar leis ou direitos de terceiros.
Desde a criação do bloco, mais de 600 pessoas já passaram pela iniciativa, algumas delas se profissionalizando e dando origem a novos projetos culturais e organizações sociais. A escolha por abordar temas como combate à violência contra mulheres, enfrentamento ao preconceito contra pessoas LGBTQIA+, valorização das juventudes e o antirracismo é apontada como um exercício de cidadania, e não como afronta a crenças religiosas.
Por fim, o URUCUM reforça que o carnaval é um espaço público, plural e historicamente marcado pela crítica, pela sátira e pela inversão simbólica. Para o grupo, tentar submeter a festa a uma única moral religiosa significa restringir a diversidade de visões de mundo e promover intolerância. A carta conclui defendendo a coexistência e o respeito mútuo, sem incentivo a qualquer forma de violência ou abuso.
Graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), com passagens por Jornal O Espeto, Território Notícias e O Mundo dos Inconfidentes.
