Onze anos depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, completados nesta quinta-feira (5), os atingidos ainda perguntam o que de fato foi reparado. A pergunta foi feita pela moradora Mônica dos Santos, da Comissão dos Atingidos de Bento Rodrigues, durante audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nesta quarta-feira (4). Ela foi à reunião com uma camisa que lembra os mortos no desastre.
Para Mônica, além do que já foi levado pela lama, a comunidade corre o risco de perder o direito de participar.
“Depois de 11 anos, estamos correndo o risco de passar por uma segunda forma de apagamento. O primeiro envolveu tudo que a lama levou. Agora estamos correndo o risco de cair no esquecimento e de não termos nosso direito de participação resguardado”, afirmou.
Ela também cobrou informações sobre as intervenções de descomissionamento do dique S4. Segundo Mônica, o pedido já foi feito, mas não houve resposta. Ela defende que sejam consideradas as características do tombamento, feito em 2016, e os relatórios da assessoria técnica, para explicar como o rebaixamento do dique vai interferir na qualidade da água.
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A audiência foi pedida pelo deputado estadual Leleco Pimentel (PT), presidente da Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana. Ele criticou a ausência de representantes do Governo do Estado e a falta de transparência sobre o uso dos recursos do acordo de reparação. A Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag) informou que não compareceria.
“Estamos fazendo essa audiência aqui na Comissão de Habitação porque tem casa que ficou pronta, mas os moradores não conseguiram entrar, porque falta rede de esgoto, espaço adequado e por outros motivos”, disse o deputado. Ele pediu ainda um minuto de silêncio por Edmirson José Pessoa, único empregado da Samarco cujo corpo não foi localizado até hoje.
Gabriela Andrade, representante da assessoria técnica Cáritas, questionou a informação divulgada pela Samarco de que 100% das obras previstas em Novo Bento Rodrigues e Paracatu foram concluídas.
“Moradores ainda seguem sem acesso às suas casas e a seus modos de vida, sem contar a falta do comércio local, que segue com moradores acuados com a cobrança de impostos”, afirmou.
Stephanne Biondo, da Coordenação Estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), cobrou um calendário para a conclusão do reassentamento e afirmou que a moradia temporária não pode virar solução definitiva.
“Quando olhamos para a qualidade da reparação que está sendo ofertada aos moradores, vimos que o objetivo não está sendo atingido. Não basta construir paredes, é preciso ter respeito às tradições e modos de vida dessas populações”, disse.
Transparência dos recursos
O coordenador do Núcleo de Acompanhamento de Reparações por Desastres (Nucard) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o procurador Leonardo Castro Maia, explicou que o Portal da Transparência ainda não tem informações sobre o caso porque os órgãos responsáveis aguardam uma capacitação dos servidores, marcada para o dia 11 de novembro.
Ele destacou dois pontos que, segundo ele, precisam ser acompanhados: o saneamento básico, que conta com recursos de quase R$ 8 bilhões, e a Regularização Fundiária Urbana (Reurb), que é responsabilidade do Governo do Estado.
“Acredito que preservar a memória é fundamental para garantir que isso não se repita. Essa cicatriz gerada em nosso Estado nunca será apagada”, afirmou o procurador.
Leleco Pimentel informou que vai pedir ao Ministério Público que solicite a retirada de outdoors instalados nos municípios atingidos com a informação de que 100% das famílias receberam suas casas.
Com informações da ALMG.
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Bacharel em jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), com passagens por Jornal O Espeto, Território Notícias e Portal Mais Minas.
