Disputa entre escritórios na Justiça inglesa pode gerar multas de milhares de reais para atingidos de Mariana

Disputa entre escritórios na Justiça inglesa pode gerar multas de milhares de reais para atingidos de Mariana

Uma disputa judicial sobre a representação das vítimas do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, pode resultar em cobranças de alto valor financeiro para os atingidos. O escritório Pogust Goodhead (PG) protocolou uma ação no dia 2 de setembro contra integrantes do Comitê de Clientes do Litígio de Mariana, após o grupo decidir substituir a equipe jurídica e assinar contrato com o escritório americano Bailey Glasser International (BGI).

As informações sobre os bastidores da disputa e os valores contratuais foram reveladas em reportagem assinada pelo jornalista Pedro Lovisi, do portal O Fator.

Na ação, o Pogust Goodhead solicita que o tribunal não reconheça a autoridade do comitê para destituí-lo da representação de 420 mil atingidos. O escritório britânico pede que, caso a Justiça reconheça a autoridade do grupo e os clientes não comprovem justa causa para o encerramento, as penalidades previstas no acordo sejam cobradas. Isso obrigaria os clientes a pagar “Encargos Básicos e Desembolsos” a título de dívida.

De acordo com o contrato coletivo, as multas individuais podem ultrapassar facilmente a marca dos R$ 20 mil por pessoa. O documento estabelece honorários fixos de £2.500 (cerca de R$ 17,3 mil) para trabalhos realizados até 23 de outubro de 2022, com um acréscimo de £500 (R$ 3,5 mil) anuais a partir dessa data. O acordo não especifica o valor dos custos comuns, que também integrariam o cálculo das penalidades processuais, o que pode elevar ainda mais o montante exigido de cada vítima.

Posicionamento dos escritórios no caso Mariana

O Pogust Goodhead afirmou que recorreu ao tribunal para obter uma definição jurídica sobre os efeitos da decisão do comitê e sobre os direitos previstos nos contratos. O escritório sustenta que cada cliente possui o direito de escolher sua representação e questiona a validade de uma decisão coletiva que submeta centenas de milhares de pessoas a consequências financeiras sem a escolha individual informada. Na ação, o PG também pede a divulgação dos nomes dos integrantes do comitê, atualmente mantidos em sigilo para evitar pressões.

Por outro lado, o Comitê de Clientes encerrou o contrato com o PG de forma unânime e alegou justa causa. O escritório BGI, que assumiu o caso com o apoio da Hausfeld & Co LLP, afirmou que a troca ocorreu por falhas relacionadas à gestão do processo e à comunicação com clientes e advogados parceiros.

O BGI relatou que as questões foram apresentadas ao PG, que não ofereceu respostas satisfatórias dentro do prazo concedido para correções. O escritório Humphries Kerstetter (HK), que representa o comitê, informou que o grupo tomou a decisão após buscar orientação jurídica independente.

Leia também:

Comitê e histórico do processo

O Comitê de Clientes foi criado em 2022 pelo próprio PG para agilizar decisões processuais. O grupo possui poderes concedidos pelos próprios clientes e representa 420 mil autores, incluindo pessoas físicas, indígenas, quilombolas, instituições religiosas e empresas. O processo geral conduzido pelo Pogust Goodhead registra a representação total de aproximadamente 620 mil clientes.

O rompimento da barragem, operada pela Samarco (joint venture da Vale e BHP), ocorreu em 5 de novembro de 2015, causou a morte de 19 pessoas e liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos na bacia do Rio Doce.

Linha do tempo do Caso Mariana na Inglaterra

  • A ação judicial teve início em 2018 contra a empresa BHP.
  • Em julho de 2022, a Corte inglesa reconheceu a jurisdição apropriada para julgar o caso.
  • O Supremo Tribunal do Reino Unido recusou permissão à BHP para apelar em 1º de junho de 2023.
  • O Tribunal Superior de Londres concluiu, em novembro de 2025, que a BHP é responsável pelo desastre.
  • O pedido da mineradora para recorrer da decisão de responsabilidade foi negado pela Corte em janeiro de 2026.
  • O processo encontra-se na fase de definição de danos, e os julgamentos para a quantificação das indenizações estão agendados para ocorrer entre abril de 2027 e março de 2028.
  • O BGI comunicou que planeja dar continuidade ao processo sem interrupções e não espera impacto relevante no cronograma do litígio.

Mantenha-se atualizado! Selecione o Jornal Geraes como principal fonte de informação no Google e passe a receber com mais facilidade conteúdos do portal na ferramenta de busca, no Google Notícias e no Google Discover. Que tal fazer agora CLICANDO AQUI? 

Notícias relacionadas

Leave a Comment