Uma descoberta arqueológica feita em Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, revelou vestígios inéditos da presença africana durante o período da escravidão no Brasil. Em meio às obras de restauração de um casarão colonial no Centro Histórico da cidade, pesquisadores identificaram no porão do imóvel um conjunto de inscrições, desenhos e símbolos preservados nas paredes há mais de dois séculos.
O imóvel, localizado na Rua Conde de Bobadela, conhecida como Rua Direita, possui cerca de 260 anos e integra uma das áreas mais antigas de Ouro Preto. O espaço subterrâneo onde os registros foram encontrados permaneceu fechado por décadas, condição que ajudou a conservar parte significativa das marcas deixadas no local.
Os estudos apontam que as inscrições podem ter sido produzidas entre o fim do século XVIII e o início do XIX por africanos escravizados e seus descendentes. O conjunto reúne figuras humanas, símbolos geométricos, desenhos de animais, embarcações e representações associadas a tradições culturais africanas.
Algumas imagens aparecem gravadas diretamente nas paredes, enquanto outras foram feitas com pigmentos escuros e avermelhados. Em razão do desgaste provocado pelo tempo, parte dos registros precisou ser analisada com técnicas de iluminação especial e tratamento digital para permitir a identificação dos detalhes.
Entre os elementos considerados mais relevantes pelos pesquisadores está uma cena que mostra pessoas em um espaço cercado por muralhas e torres, semelhante a estruturas descritas em referências históricas da África Ocidental. Outra imagem que chamou atenção é uma espécie de máscara confeccionada com grafite e fibras, relacionada visualmente a tradições da África Centro-Ocidental.
Há ainda uma figura de interpretação indefinida que mistura traços humanos e animais, com presença de chifres e dentes pontiagudos. O significado do desenho ainda é alvo de estudo.
O historiador e arqueólogo Leonardo Klink, responsável pela pesquisa acadêmica desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que a diversidade de técnicas, materiais e estilos encontrados torna o conjunto arqueológico raro no contexto brasileiro.
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O sítio foi registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) com o nome de “Inscrições Afrodiaspóricas”. Para os especialistas, o material ajuda a ampliar a compreensão sobre a participação da população africana na formação histórica e cultural de Ouro Preto, tradicionalmente marcada pelas narrativas ligadas à mineração, ao barroco e às elites coloniais.


Pintura em parede de casarão histórico em Ouro Preto. Foto: Leonardo Klink/ Divulgação
Os pesquisadores defendem ainda que espaços subterrâneos de antigos casarões podem ter exercido funções mais amplas do que a definição comum de “senzalas urbanas”. A hipótese é de que esses ambientes também tenham servido para manifestações culturais, preservação de memórias, transmissão de conhecimentos e resistência simbólica da população negra escravizada.
Documentos históricos mostram que Minas Gerais recebeu africanos de diferentes regiões do continente ao longo dos séculos XVIII e XIX. Registros da época mencionam grupos identificados como “mina”, “cabinda”, “congo”, “angola”, “benguela” e “calabar”, classificações utilizadas no contexto do tráfico negreiro e da administração colonial.
O casarão continua passando por obras de conservação e adequações técnicas. A expectativa é de que o espaço possa futuramente ser aberto à visitação pública e utilizado em atividades educativas voltadas à preservação da memória e da história afro-brasileira.
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