Uso de recursos da tragédia de Mariana em duplicação da BR-356 gera críticas e preocupação com demolições

Uso de recursos da tragédia de Mariana em duplicação da BR-356 gera críticas e preocupação com demolições

Moradores de Ouro Preto e Mariana criticaram, durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (13) na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o uso de recursos da repactuação do desastre de Mariana nas obras de duplicação da BR-356. A principal preocupação levantada pelos participantes envolve o impacto social das desapropriações e a destinação do dinheiro do acordo firmado após o rompimento da barragem de Fundão.

A reunião da Comissão de Transporte, Comunicação e Obras Públicas debateu os impactos sociais e econômicos da duplicação de 78 quilômetros da rodovia entre Nova Lima e Mariana, trecho incluído na concessão do consórcio Rota da Liberdade.

O projeto prevê investimentos de aproximadamente R$ 5 bilhões ao longo de 30 anos. Parte dos recursos será financiada com verbas do Novo Acordo de Reparação do Rio Doce. Dos R$ 170 bilhões previstos na repactuação, o Governo de Minas pretende utilizar R$ 2 bilhões em intervenções na BR-356 e nas MGs 262 e 329.

Moradores criticam uso de recursos da repactuação na duplicação da BR-356

Durante a audiência, representantes de movimentos sociais e moradores atingidos afirmaram que os recursos provenientes da tragédia ambiental deveriam priorizar diretamente as vítimas e comunidades impactadas.

A representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Stephanne Luíza Arcano Biondo, criticou o fato de os recursos da reparação serem destinados à duplicação da rodovia, afirmando que as obras podem acabar beneficiando principalmente a atividade mineradora na região.

A assessora jurídica da Cáritas em Mariana, Marcela Gregório Barreto, também questionou a utilização do nome “Rota da Liberdade” para a concessão. Segundo ela, moradores têm manifestado preocupação de que a duplicação favoreça sobretudo o escoamento de minério.

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Vereadores de Ouro Preto e Mariana cobram diálogo e proteção às famílias

O vereador de Ouro Preto, Alex Brito, afirmou durante a audiência que moradores esperavam posicionamentos do governador em exercício, Mateus Simões, sobre a duplicação da BR-356 e sobre a situação das famílias ameaçadas por desapropriações.

O parlamentar também demonstrou preocupação com moradores que vivem há décadas às margens da rodovia, como o caso de Seu Vicente, citado durante a audiência como um dos atingidos por notificações de desapropriação.

“Faço um clamor ao Governo do Estado para que tenha atenção especial às famílias atingidas e às pessoas que vivem há muitos anos no entorno da BR-356”, afirmou o vereador durante a reunião.

Já o vereador de Ouro Preto, Matheus Pacheco, cobrou mais diálogo entre o consórcio responsável pela concessão e as comunidades impactadas pela obra.

Segundo ele, moradores de regiões como Amarantina, Cachoeira do Campo, Saramenha, Pocinhos e outros bairros ainda enfrentam dificuldades para obter informações claras sobre desapropriações e impactos urbanos da duplicação.

O parlamentar também questionou como ficará a mobilidade de estudantes e moradores que dependem da travessia da rodovia para acessar escolas, postos de saúde e serviços públicos.

O vereador de Mariana, Preto do Cabanas, afirmou que a duplicação da BR-356 é necessária para garantir mais segurança viária e desenvolvimento regional, mas criticou o modelo adotado para a concessão.

Segundo ele, a população já sofre os impactos sociais da mineração e agora pode acabar pagando novamente através da cobrança de pedágio em uma obra financiada com recursos da reparação.

“O recurso deveria ser para reparar os danos da tragédia. A população sente que está pagando duas vezes”, declarou.

Insegurança sobre desapropriações às margens da BR-356

Um dos momentos mais emocionantes da audiência foi o relato de “Seu Vicente”, morador de Mariana que vive há 45 anos em uma das áreas que podem ser desapropriadas para as obras da duplicação.

Segundo o morador, ele recebeu uma notificação informando que sua residência poderá ser demolida.

Representantes de comunidades quilombolas e moradores de Ouro Preto também cobraram transparência sobre os levantamentos das áreas afetadas e garantias de reassentamento digno para as famílias atingidas.

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